Medo de quê?
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Medos há muitos e destes muitos, muito o que falar.
Há muitos anos que estudo psicanálise e exerço como psicoterapeuta. Há alguns anos que conto contos. Estes dois ofícios têm, no meu entender, muitos pontos de contacto. Antes de mais, são ambos ofícios de relação, que implicam em um contacto direto e, num certo sentido, íntimo, entre duas ou mais pessoas. E entre o eu e o outro, um campo, um espaço de significações possíveis, onde o inconsciente joga um papel tão ou mais importante do que o que é partilhado de forma consciente.
Esta relação tem como mediador privilegiado, ainda que não único, a fala. A fala repleta de afetos de um e a escuta atenta do outro, em situação presencial, permite a criação deste campo de possibilidades1 onde os inconscientes se encontram e o que se diz para o outro é reinterpretado e dotado de significação conjunta, no aqui-e-agora do encontro.
Assim, quando um narrador conta uma história a um ouvidor, o que acontece é um encontro entre fala e escuta de coisas que, em ambos, mobilizam afetos 2.
Começando pelas crianças. Quando pensamos em medo associado aos contos, frequentemente pensamos em histórias de terror, tantas e tantas vezes pedidas. Mas as crianças, quando pedem histórias de terror, não estão na verdade à espera de aterrorizarem-se. Estão a solicitar a vivência acompanhada do medo.




